Notícias

Seca no Pantanal: auge é a melhor época para ver onças

Agosto marca o auge da seca no Pantanal, período em que as águas baixam e escoam pelo Rio Paraguai. Habituada à sazonalidade, a fauna local se adapta para garantir o alimento na…

Conteúdos Evergreen
Por Conteúdos Evergreen 5 min de leitura
Seca no Pantanal: auge é a melhor época para ver onças
Onça- pintada bebe água em corpo d'água no Pantanal (Foto: Carlos Eduardo Fragoso)

Agosto marca o auge da seca no Pantanal, período em que as águas baixam e escoam pelo Rio Paraguai. Habituada à sazonalidade, a fauna local se adapta para garantir o alimento na nova configuração da paisagem. Entre os animais que alteram seus hábitos está a onça-pintada: com a retração das águas, o maior felino das Américas passa a frequentar mais as margens dos rios e torna-se uma presença mais constante no cenário pantaneiro.

Entre abril e julho, o Pantanal vive a fase da vazante, período em que as águas recuam lentamente em direção aos leitos dos rios, revelando os campos antes alagados. Na sequência, agosto e setembro marcam o auge da estação seca no bioma, transformando a paisagem à medida que rios e lagoas atingem seus níveis mais baixos.

Segundo estudo da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e Unesp (Universidade Estadual Paulista), que monitorou oito onças-pintadas no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, a seca altera a rotina dos animais. Com a água restrita aos canais principais dos rios e a pequenos corpos d’água, os felinos passam a frequentar mais as margens e praias de areia para caçar e beber água, ficando mais expostos e fáceis de serem avistados.

O Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário, composto por Ibama, ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Polícia Militar Ambiental de MS, Fundação Municipal de Meio Ambiente de Corumbá, Defesa Civil, IHP (Instituto Homem Pantaneiro) e Jaguarte, atua no acompanhamento e no monitoramento de onças na região do Pantanal. A equipe aponta que a espécie tem uma forte relação ecológica com os ambientes associados à água no bioma e que alterações no regime hídrico afetam diretamente o comportamento do animal.

“Rios, corixos, baías e outras áreas úmidas influenciam a distribuição das presas, a disponibilidade de recursos e o próprio uso da paisagem pelas onças”, explica o Grupo. Por isso, a redução na disponibilidade de água pode ocasionar alterações na distribuição e na quantidade de presas. Essa diminuição de alimento afeta a maneira como a onça interage com seu habitat, já que ela precisa reorganizar suas rotas e frequentar locais diferentes para conseguir caçar.

“Em uma escala mais ampla e de longo prazo, a perda e a alteração desses ambientes também podem afetar a dinâmica populacional da espécie”, alertam os especialistas.

Menos água, mais seca

Apesar de o regime das águas ser um fenômeno recorrente no Pantanal, o desmatamento e as mudanças climáticas podem desequilibrar esse processo e, por consequência, atingir o cotidiano da fauna já acostumada à sazonalidade do bioma. Segundo o estudo Mudanças Climáticas e Agricultura Familiar no Pantanal da América do Sul, conduzido por Luciana Vicente Silva, doutora em Ecologia e Conservação e técnica da Ecoa (Ecologia e Ação), o bioma poderá registrar, até 2070, um aumento superior a 2,5°C na temperatura em algumas regiões e uma redução de até 200 milímetros de chuva na porção norte, onde estão áreas de nascentes que impulsionam a inundação das planícies.

As projeções foram elaboradas com base no cenário climático RCP 4.5 (Trajetória Representativa de Concentração), uma projeção intermediária que pressupõe esforços globais para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Contudo, mesmo dentro dessa perspectiva mais “otimista”, a pesquisa aponta impactos sobre a temperatura e o volume de precipitação em todo o Pantanal.

Tradicionalmente, a porção norte do bioma, além de abrigar as nascentes mais importantes, concentra o maior volume de chuvas, atuando como o grande motor que alimenta os rios da região. Com a redução das chuvas no norte e um possível aumento no sul, o regime natural das águas fica ameaçado. Se a queda de até 200 milímetros de chuva nas áreas de recarga se confirmar, o volume de água que chega aos rios, baías, corixos e vazantes irá diminuir drasticamente, o que interfere de forma direta em toda a biodiversidade.

Para o Grupo Técnico Onças Urbanas, essa mudança acende um alerta vermelho para a conservação do felino no Pantanal. “A perda de ambientes aquáticos e áreas úmidas representa uma preocupação importante para a conservação da onça-pintada no Pantanal”.

Pode ver, mas cuidado

Com o período de seca, aumenta também o avistamento de onças-pintadas no Pantanal. O fenômeno impulsiona uma atividade turística muito procurada nesta época do ano, já que encontrar o maior felino das Américas em seu habitat natural é uma experiência marcante e rara. O Grupo aponta que a observação de onças “precisa seguir protocolos que garantam, primeiro, a segurança das pessoas e, segundo, que o turismo não altere o comportamento natural do animal”.

Por esse motivo, guias e turistas devem manter distância e evitar forçar qualquer contato com o felino, respeitando sua rota de fuga e jamais utilizando alimentos ou sons para atraí-lo. Além disso, é proibida qualquer aproximação a pé: todos os avistamentos devem ser feitos a partir de veículos ou embarcações autorizadas, acompanhados de guias capacitados. “A onça é um animal de vida livre. Nós podemos aumentar as chances de encontrá-la com conhecimento e monitoramento, mas nunca provocar esse encontro artificialmente”, conclui a equipe.

Conteúdos Evergreen

Conteúdos Evergreen

Produzidos pela equipe editorial da Folha do Noroeste, conteúdos evergreen que mantêm valor ao longo do tempo.

Mais textos do autor →