Com investimento de quase US$ 90 milhões, a Ponte Bioceânica já está conectada entre Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, e Carmelo Peralta, no Paraguai. A estrutura tem 1.294 metros de extensão. Apesar da obra pronta, chegar até ela é uma tarefa complicada para quem não tem uma caminhonete.
Atualmente, a ponte liga “coisa alguma” a “lugar nenhum”. Não há um quilômetro de pavimento em suas cabeceiras. Para alcançar a estrutura de forma independente, foi preciso enfrentar estradas de terra, lama e obstáculos inesperados.
No lado brasileiro, moradores indicaram o setor administrativo do canteiro de obras, às margens da BR-267, a cerca de seis quilômetros de Porto Murtinho. Por ali, seria possível acessar a Estrada do Bocaiuval. Em uma quinta-feira chuvosa, um trabalhador informou que as atividades estavam paradas por causa do tempo. Ao tentar acessar a estrada, a resposta foi direta: “Moça, esse carro não passa!”.
Sem desistir, a equipe seguiu em direção ao rio e embarcou o carro em uma balsa. O valor combinado foi de R$ 150. Ao chegar em Carmelo Peralta, a internet começou a falhar. O cobrador aceitava apenas Pix ou guarani. Felizmente, a conexão funcionou.
Os agentes da aduana foram bem-humorados. Ao saber que o destino era apenas a ponte, disseram que não era necessário passar pela imigração. A cidade paraguaia tem aparência quase rural, com casas simples, cachorros, árvores frutíferas e motocicletas estacionadas.
Ao chegar à PY-15, o pavimento mudou um pouco, parecendo mais uma calçada. Saindo da rodovia, começaram os problemas. Faltavam uma linha reta e uma curva à esquerda para a ponte, mas o trecho era de argila do Chaco paraguaio, uma lama pegajosa que fazia o carro derrapar.
Próximo ao destino, uma cerca e um porteiro nada amigável impediram a passagem. A área pertence a menonitas, uma comunidade etnocultural fechada. Sem opção, a estratégia foi pedir carona. Uma caminhonete paraguaia parou e levou a equipe até a cabeceira da ponte, que era uma muralha de areia.
Finalmente, a estrutura foi alcançada. O motorista João Carlos conseguiu chegar com o carro do jornal, agora mais pesado pela lama. Para voltar, a equipe conseguiu carona na balsa usada pela comitiva do prefeito de Porto Murtinho, Nelson Cintra.
Do lado brasileiro, o barranco de areia termina em lugar nenhum. Todos voltaram pela estrada vicinal Bocaiuval, em um percurso de 35 minutos. A missão de chegar à ponte de forma independente não foi totalmente concluída.
Comparação com a Ponte da Integração
O chamado “beijo da ponte” foi celebrado pelos setores político e empresarial. No lado brasileiro, estão previstos 13,1 quilômetros de rodovia, seis pontes, um viaduto e o contorno rodoviário de Porto Murtinho. No Paraguai, autoridades falam em captar recursos para concluir os acessos.
A preocupação é que a ponte não se torne uma nova Ponte da Integração, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Presidente Franco, no Paraguai. Essa obra ficou pronta, mas permaneceu sem uso por quase três anos devido ao atraso na construção dos acessos, inviabilizando a circulação de carros e caminhões.
Em poucos meses, o acabamento da Ponte Bioceânica será entregue em clima de festa. Por enquanto, para chegar lá, é necessário caminhonete e internet por satélite para evitar problemas.
