Documento revela momentos decisivos da história do Brasil

Na segunda-feira da semana passada, 21 de abril de 1985, Tancredo de Almeida Neves finalmente chegou ao Palácio do Planalto, após 38 dias de espera e uma causa trágica. Ele deveria ter tomado posse no dia 15 de março, marcando uma nova era de governança civil e o retorno à democracia no Brasil. No entanto, sua morte transformou esse momento histórico em uma cena de profunda tristeza.
Tancredo, que estava internado no Instituto do Coração em São Paulo durante um mês, deixou um legado importante. Sua morte levou à posse do vice-presidente José Sarney, em um acordo político elaborado por Ulysses Guimarães, uma das figuras mais renomadas do país. Assim, a unidade política que Tancredo buscou em vida foi consolidada depois de sua partida. O processo de transição da ditadura para a democracia, que ele não pôde verbalizar, havia criado uma base sólida para a defesa do estado de direito, uma luta que continua até hoje, especialmente diante das recentes ameaças à democracia.
Depois da morte de Tancredo, circulava entre jornalistas e políticos a expectativa de um discurso que ele não chegou a fazer na posse. O objetivo era conseguir o texto como um grande furo jornalístico. Lívio César Carvalho Ferraz, conhecido como César Ferraz e chefe da sucursal de VEJA em Belo Horizonte, foi quem eventualmente conseguiu essa informação. Respeitado no meio político por sua boa relação com o governador Hélio Garcia, um dos discípulos de Tancredo, César soube que tinha em mãos um material valioso quando Hélio revelou que tinha o discurso. Em uma madrugada de fechamento, ele enviou as páginas do texto por fax para a redação em São Paulo. O editor, animado com a descoberta, brincou com César, dizendo que ele teria várias páginas na revista mesmo sem ter escrito uma linha.
O discurso acabou ocupando oito páginas na revista, com uma chamada de capa que destacava a exclusividade do material: “O discurso que Tancredo não pôde fazer no dia da sua posse”. Além disso, a capa abordava outros temas, como os 100 dias de Sarney e a luta contra a AIDS, exemplificada pelo drama de Rock Hudson.
Os trechos do discurso de Tancredo, lidos atualmente, transmitem uma mensagem clara sobre o respeito à democracia e a luta contra a desigualdade no Brasil. Entre suas palavras, destacam-se diversas declarações impactantes, como a afirmação de que a cerimônia de posse não deveria ser uma vitória de uma facção sobre outra, mas sim uma celebração da conciliação nacional. Ele também refletia sobre a necessidade de mais amor à pátria entre o povo e as elites, além de criticar o egoísmo das classes dirigentes.
Dentre suas frases marcantes estão apelos a um governo justo e a proteção dos interesses do povo, ressaltando que aqueles que traírem a confiança do público enfrentarão as consequências.
César Ferraz, que se destacou como um repórter meticuloso e um contador de histórias, faleceu em 28 de agosto, aos 73 anos, devido a complicações do Alzheimer. Após sua passagem pela VEJA, ele continuou a trabalhar em outros veículos de comunicação e se dedicou a projetos pessoais, sempre mantendo sua postura modesta. Sua contribuição ao jornalismo reflete a importância da memória histórica, da informação e da verdade.