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Batalha legal pode mudar o setor de revenda de ingressos

A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) está envolvida em uma disputa legal com a Key Investment Group, uma empresa de vendas de ingressos localizada em Maryland. O caso pode ter um grande impacto na indústria de revenda de ingressos e determinar como o governo pode agir contra a utilização de “bots” em vendas de eventos ao vivo.

A questão central do conflito é a definição do que constitui o uso de bots. A maioria dos profissionais da indústria de ingressos concorda que o uso de bots refere-se a programas automáticos que garantem a compra de ingressos em massa durante vendas populares, o que pode obstruir outros compradores. No entanto, advogados da FTC argumentam que qualquer software que permita a uma única pessoa operar várias contas no Ticketmaster de uma só vez pode ser classificado como um bot.

Em 18 de agosto, a advogada da FTC, Molly Rucki, apresentou uma denúncia contra a Key Investment Group, acusando a empresa de utilizar métodos ilegais para comprar centenas de milhares de ingressos para shows de Taylor Swift e Bruce Springsteen. A FTC alega que a Key usou milhares de contas falsas do Ticketmaster, bem como números de cartões de crédito virtuais, endereços de IP falsificados e outros artifícios para contornar as limitações de venda de ingressos.

Esses métodos são violadores técnicos da Lei de Vendas de Ingressos Online (BOTS Act), aprovada em 2016, que proíbe a operação de qualquer software que contorne medidas de segurança em sites de venda de ingressos utilizadas para impor limites de compra.

Conforme os documentos da FTC, a Key obteve quase 7 milhões de dólares em lucros em 2023 apenas com a venda de ingressos para o show de Taylor Swift, comprando aproximadamente 380 mil ingressos por 57 milhões de dólares e revendendo-os por 64 milhões. Um exemplo citado pela FTC mostra que funcionários da Key usaram 49 contas para adquirir 273 ingressos para um show da artista, muito acima do limite de seis ingressos por pessoa estipulado pelo Ticketmaster, resultando em um lucro de 119 mil dólares.

Antes da ação da FTC, a Key previu esses movimentos e processou a agência, argumentando que o governo estava ampliando o significado da BOTS Act. De acordo com o advogado Bezalel Stern, a Key não utiliza bots e adota práticas semelhantes às de todo o legítimo mercado de revenda de ingressos, utilizando múltiplas contas geridas por funcionários.

A Key afirma que as regras do Ticketmaster para revendedores reconhecem que a prática de usar várias contas é comum e que o Ticketmaster está ciente disso. A empresa ressalta que a Ticketmaster colabora ativamente com a Key, inclusive realizando pagamentos únicos para todo o estoque de ingressos vendidos.

A disputa também revela uma questão mais ampla sobre os limites da aplicação da Lei de Vendas de Ingressos Online. Especialistas em cibersegurança, como Jérôme Segura, alertam que a distinção entre bots e ações humanas é mais uma questão retórica do que prática. Ele argumenta que tanto o uso de bots quanto a criação de várias contas por humanos para contornar limites pode ser considerado fraudulento, especialmente se a intenção for aumentar os preços e maximizar os lucros.

A Lei BOTS, desde sua proposta, tem entrado em vigor de forma escassa, sempre se concentrando mais no uso de software automatizado. Em 2021, a FTC processou três grupos de corretores de ingressos que supostamente usaram software automatizado para adquirir ingressos ilegalmente, mas esses casos não foram litigados e resultaram em acordos. A Key argumenta que os acusados nesses casos anteriores eram reincidentes no uso de bots, enquanto a empresa insiste que não utiliza esses métodos.

Segura afirma que o cenário evoluiu desde a aprovação da BOTS Act em 2016 e sugere que a legislação deve ser atualizada para incluir novas formas de ataques, não se limitando a bots tradicionais, mas a qualquer meio que possa ser usado para adquirir ingressos.

A Key afirma que a FTC deve focar apenas em prosecções de scripts automatizados, ao invés de métodos tecnológicos que possibilitam que revendedores contornem limites de venda. A empresa alerta que uma interpretação mais ampla da FTC pode prejudicar a indústria de revenda, tornando ilegal a prática de muitos revendedores e favorecendo poucos conglomerados que dominam o mercado primário.

Além disso, outros corretores de ingressos, como Gary Adler, da Associação Nacional de Corretores de Ingressos, levantam a preocupação sobre a linha entre ferramentas inovadoras que facilitam transações legítimas e software projetado para enganar os fãs.

A FTC, por sua vez, argumenta que os métodos empregados pela Key são exatamente os tipos de práticas injustas que o Congresso desejava erradicar, mesmo que o termo “bot” remeta a códigos e scripts, em vez de ferramentas como bancos de SIM e mascaramento de IP.

Em suma, à medida que a disputa continua, a necessidade de uma maior clareza e atualização nas legislações sobre a venda de ingressos torna-se evidente.

Editorial Noroeste

Conteúdo elaborado pela equipe do Folha do Noroeste, portal dedicado a trazer notícias e análises abrangentes do Noroeste brasileiro.

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