Ir direto ao conteúdo
Folha do Noroeste Buscar
Dicas/Insights

Água salobra de poço: por que acontece, o que prejudica e como tratar

Água salobra de poço não obriga a perfurar outro: o dessalinizador recupera até 75% do volume como água doce.

Por · · 6 min de leitura
Bomba manual de poço em área rural com plantação ao fundo

Bomba manual de poço em área rural com plantação ao fundo

O poço foi perfurado a 120 metros, a vazão veio boa e a água saiu limpa. A comemoração durou até o primeiro café: gosto salgado, leve, mas impossível de ignorar. O laboratório confirmou 2.800 mg/L de sais dissolvidos, quase seis vezes o limite de potabilidade. É a chamada água salobra de poço, comum em áreas de rocha cristalina do Nordeste, do norte de Minas e de partes do Centro-Oeste. A propriedade não perdeu o poço: instalou um dessalinizador para poço artesiano e passou a ter água doce para a casa, o gado e a horta.

O caso é frequente e quase sempre mal diagnosticado. Muita gente abandona o poço, compra água de caminhão ou perfura outro a poucos metros, que dá a mesma água. Este texto explica por que a água sai salobra, como medir, o que a salinidade faz com pessoas, animais, plantas e equipamentos, e qual tratamento resolve em cada faixa.

Por que a água salobra de poço acontece

Água salobra de poço é a que traz sais dissolvidos acima do padrão de potabilidade, sem chegar à salinidade do mar. A Portaria GM/MS 888/2021 admite até 500 mg/L de sólidos dissolvidos totais; a água do mar tem cerca de 35 mil. Entre esses dois números está a água salobra, que costuma ficar entre 1.000 e 10.000.

Os sais vêm da rocha. Em terreno cristalino, comum no semiárido, a água fica retida em fraturas com pouca renovação e dissolve minerais por muito tempo. Em regiões de clima seco, a evaporação concentra ainda mais. Em áreas litorâneas, a bomba puxa água salgada do mar para dentro do aquífero quando o poço é explorado além da recarga.

Poços vizinhos podem dar água diferente, porque cada fratura é um caminho distinto.

O que a salinidade faz em cada uso

A tabela mostra faixas de salinidade, o que cada uma permite e o que ela prejudica.

Sólidos dissolvidosO que permiteO que prejudica
Até 500 mg/LConsumo humano dentro da normaNada relevante
De 500 a 1.000 mg/LAnimais, irrigação de culturas tolerantes, limpezaGosto na água de beber, incrustação leve
De mil a 3 mil mg/LGado e ovinos com adaptação, irrigação restritaConsumo humano, chuveiro, máquinas, caldeira
De 3 mil a 10 mil mg/LQuase nada sem tratamentoSolo salinizado, corrosão de metais, plantas queimadas
Acima de 10 mil mg/LSó com dessalinizaçãoQualquer uso direto

A tabela vale como referência: o laudo completo, com cloretos, sódio, dureza e sulfato, é o que define o uso e o tratamento.

Como confirmar a salinidade e escolher o tratamento

O roteiro abaixo evita perfurar outro poço à toa e comprar equipamento errado.

  1. Medir a condutividade elétrica com um medidor portátil: acima de 1.500 microsiemens por centímetro, a água já é salobra.
  2. Coletar amostra na saída do poço e pedir sólidos dissolvidos totais, cloretos, sódio, dureza, sulfato, ferro e nitrato.
  3. Registrar a vazão do poço e o consumo diário previsto para casa, animais e irrigação.
  4. Definir os usos: quem precisa de água doce, quem tolera água salobra e quem pode receber o concentrado.
  5. Dimensionar o dessalinizador pela salinidade, pela vazão tratada necessária e pela energia disponível.

O que acontece com pessoas, animais e plantas

Para pessoas, a água com sal tem gosto ruim, causa desconforto intestinal em quem não está acostumado e sobrecarrega os rins com sódio e cloreto. O limite da norma existe por isso.

Bovinos e ovinos toleram mais do que humanos, mas acima de 3.000 mg/L o consumo cai, o ganho de peso diminui e podem surgir problemas digestivos. Aves são mais sensíveis.

Nas plantas, o sal impede a raiz de absorver água e queima a folha. A irrigação contínua com água salobra saliniza o solo e o tira de produção em poucos anos, o que já aconteceu em perímetros irrigados do Nordeste.

O que os cloretos fazem com os equipamentos

Cloretos corroem aço e cobre, e por isso resistência de chuveiro, bomba submersa e tubulação metálica duram menos nesse tipo de poço. Sais de cálcio e magnésio, que costumam vir junto, formam crosta em aquecedor, caldeira e máquina de lavar.

Em pousada, laticínio ou pequena indústria abastecida por poço salobro, a conta aparece em manutenção antes de aparecer em qualidade do produto.

O tratamento na entrada protege tudo que vem depois e costuma se pagar só com as peças que deixam de ser trocadas.

Dessalinizador por osmose reversa: como resolve

O dessalinizador força a água contra uma membrana que retém de 95% a 99% dos sais. Para poço salobro a pressão fica entre 10 e 20 bar, bem abaixo da usada em água do mar, e o consumo de energia é baixo o suficiente para operar com painel solar em propriedade isolada.

O sistema tem pré-filtro de sedimentos, dosagem de antiincrustante quando há dureza, bomba, vasos de membrana e um reservatório de água tratada. Uma parte da água entra como concentrado, com os sais retidos, e precisa de destino.

A recuperação em poço salobro fica entre 60% e 75%, ou seja, de cada 100 litros, 60 a 75 viram água doce.

Concentrado, energia e manutenção no dia a dia

O concentrado não pode ir para o solo nem para o riacho sem controle, porque saliniza. Em propriedade rural ele vai para tanque de evaporação, irrigação de plantas tolerantes ao sal, como a palma forrageira, ou criação de tilápia, prática adotada pelo Programa Água Doce no semiárido.

A manutenção é trocar o pré-filtro, repor o antiincrustante, lavar a membrana no intervalo indicado e acompanhar a condutividade na saída, que sobe quando a membrana precisa de limpeza ou troca.

Com pré-tratamento correto, a membrana dura de três a cinco anos.

Perguntas frequentes sobre água salobra de poço

Dá para beber essa água?

Não, acima de 500 mg/L de sais. Abaixo disso a água está dentro da norma, mesmo que tenha um gosto leve.

Perfurar mais fundo resolve?

Nem sempre. Em terreno cristalino, a água mais profunda costuma ser mais salina. O laudo e a hidrogeologia local dizem mais que a profundidade.

Filtro comum tira o sal?

Não. Sal está dissolvido e atravessa filtro de areia, carvão e vela. Só membrana de osmose reversa ou eletrodiálise retiram.

Gado pode beber água salobra?

Bovinos toleram até cerca de 3.000 mg/L com adaptação. Acima disso o consumo e o desempenho caem.

O dessalinizador funciona sem rede elétrica?

Funciona com painel solar e bomba adequada, como em comunidades isoladas do semiárido.

Para onde vai o concentrado?

Tanque de evaporação, irrigação de plantas tolerantes ou criação de peixes. Nunca para o solo de cultivo nem para o córrego.

Resumo

Água salobra de poço traz sais acima dos 500 mg/L da norma, vem da rocha cristalina e da evaporação em clima seco, e prejudica pessoas, animais, plantas e equipamentos conforme a faixa. A confirmação parte da condutividade e do laudo completo, e o tratamento é o dessalinizador por osmose reversa, que opera em pressão baixa, aceita energia solar e recupera de 60% a 75% do volume como água potável. O concentrado precisa de destino, e a membrana dura anos com pré-tratamento correto.

Enviar para: WhatsApp Facebook X
Leia também