Sábado, 28 de Outubro de 2017 às 20:53
Bullying
Para combater esta prática nas escolas e na sociedade temos que ter um exercício constante de tolerância com os demais
Por: SZATKOSKI, Elenice. Dr. em História, pesquisadora e Coordenadora da Unopar - Palmeira das Missões
Elenice Szatkoski, doutora em História, pesquisadora e coordenadora da Unopar (Polo de Palmeira das Missões-RS). FOTO - Arquivo pessoal

   Está no DNA humano ou no DNA da história da humanidade a prática do bullying. Podemos nos reportar a situações simples e até mais complexas dessa prática. Pesquisas mostram que o homem exclui seu semelhante e o condena se este for “imperfeito” diante da “perfeição” da maioria. Assim foi nas sociedades primitivas por disputas e nas sociedades antigas quando os deficientes eram jogados de penhascos por não serem úteis para a sociedade e a guerra. Também na sociedade medieval onde os deficientes eram jogados “fora” e serviam como motivo de chacotas e todo o tipo de humilhações por serem “coisas” do demônio, muitos acabaram queimados nas fogueiras da Inquisição por serem imperfeitos tanto mental como fisicamente.
Assim foi na idade moderna com a escravidão, onde aproximadamente 10 (dez) milhões de negros foram humilhados, torturados e comercializados como “peças” para o desenvolvimento do capitalismo nas américas e, com a exclusão de milhares de pessoas pobres e miseráveis do acesso aos benefícios sociais em prol de Reis e Clérigos que ostentavam todas as mordomias. E o bullying foi massacrante no período do autoritarismo de Hitler quando 6 (seis) seis milhões de judeus e outras populações de diversos grupos sociais, regionais e étnicos foram exterminados nos campos de concentração nazistas! Assim história, violência e bullying andam juntas com as atitudes dos seres humanos.
    E partindo deste comportamento do ser humano poderíamos dizer que ocorre sim, bullying nas Escolas! Sim, é claro que ocorre e todo o dia. Na escola os diferentes se encontram se unem ou se separam. E o bullying produzido na escola perpassa seus muros e vai para as ruas, para os clubes onde esses “valentões” se encontram e continuam suas práticas de atordoarem os que estão mais frágeis. Tem muito bullying na escola. Tem bullying acontecendo com os alunos e alunas mais silenciosos, com os que possuem maiores dificuldades de aprendizagem, com os negros, com os gays, com as lésbicas, com os gordinhos e gordinhas, com os altos, com os magros, com os deficientes físicos, com os cadeirantes, com os mais pobres, com os cegos e com os surdos e mudos. Há bullying de todo o tipo. Há bullying entre os alunos e dos alunos para com os professores e dos professores com os seus colegas professores. A escola é a arena propicia para o exercício do bullying que foi promovido pela sociedade e encontrou este local perfeito para a sua prática.
    A humanidade é cruel, as religiões são cruéis, pois acentuaram as desigualdades ao longo dos séculos e proporcionam conflitos por motivos econômicos disfarçados de motivos religiosos até hoje. Os governos que sempre primaram por defesa dos mais favorecidos efetuaram políticas públicas de inclusão superficiais, de má qualidade e de forma açodada. A legislação de inclusão de pessoas com necessidades especiais começa com a Constituição de 1988 e com a Lei da Educação – LDB 9394/96. Recentemente tivemos obrigatoriedade para que as escolas adaptassem rampas de acesso a cadeirantes (aliás rampas que em muitos casos não se pode transitar em nenhuma situação) apenas um “cimento” ou “tábuas” para simular cumprir as leis. Escolas foram construídas com escadas e pisos sem nenhum acesso, pois o “diferente” não precisava de escola “normal” precisava de escola onde fosse escondido da sociedade, pois era feio, era coisa do diabo, era praga...e, assim construímos uma escola excludente, uma escola para normais “anormais”.
    Valentões que desde pequenos aprendem a reproduzir a violência e o descaso com os outros. Valentões que aprendem a serem agressores. Valentões que estão em todas as escolas não somente do Brasil, mas do mundo inteiro. Esses valentões estão respaldados por pessoas “adultas” que ajudam a promover a violência de várias formas. A escola não consegue sozinha, com as condições péssimas que possui de estagnar esta prática, os professores mal pagos e desmotivados, com cargas horárias excessivas, sem formação continuada, não conseguem estarem preparados para tantos desafio. Por mais que muitos professores ostentem com orgulho que trabalham “60 horas” não existe professor de sessenta horas...existe o faz de conta trabalhar 60 sessenta horas, ou meio turno em sala de aula e o restante em setores. Sem tempo para si então sem tempo para esse “olhar” especial do cotidiano da escola.
 Além disso o professor tem sua casa, seus filhos e o trabalho extra para complementar renda. Sem horário  para a formação, para o estudo constante de repensar sua prática e aprimorá-la. Avaliar a situação do professor e dar condições para que os filhos dos brasileiros sejam bem assistidos na escola. Ao professor  o que está ao seu alcance é manter a “ordem” na sala de aula e passar conteúdos, quando consegue e, ao final do turno dar graças a Deus por conseguir sobreviver.
  Na outra ponta estão as famílias envolvidas nas suas redes sociais e culpando governos e meios de comunicação pela deseducação de seus filhos. Mas não param para debater sobre os programas, as músicas que pregam a violência, o racismo, a discriminação e a vulgarização da mulher. Não debatem nada. Nem tem hora de almoço juntos, de jantar, de nada...cada qual com seu quarto, sua televisão, sua internet e seu mundo. Famílias que desconhecem seus filhos, que duvidam que seus filhos praticam o bullying, que estão tão confortáveis socialmente que seus filhos são intocáveis nas escolas e, muitos diretores tiranos, ditadores, que pregam a punição, o militarismo e a suposta “disciplina” às vítimas e não aos algozes, agindo de forma autoindulgente ao lidar com os conflitos, se perpetuam nas direções das escolas criando ainda mais um ciclo vicioso de má formação, de acomodação, cumplicidade entre seus pares e de falta de respeito com o próximo. Vale lembrar que tais indivíduos demonstram possuir características de personalidade psicopática ao ofenderem a inteligência alheia com seus discursos ufanistas e panfletários com todas as platitudes possíveis, sem contar aqueles que não possuem conhecimento de causa  para  falar em mediação de conflitos nas escolas, em um momento tão grave no qual se encontram o sistema escolar brasileiro e, principalmente, os professores. São indivíduos como aquele, que se escondia sob a capa de “credibilidade” conferida por um ambiente de cumplicidade medrosa e  prêmios e elogios por parte apenas de lacaios dos poderosos que os defendiam como aquele “valentão” chamado Harvey Weinstein, que o mundo teve a infelicidade de conhecer neste outubro rosa.
    O jornal britânico The Guardian recentemente publicou uma matéria onde os meninos são mais vítimas do bullying e consequentemente mais praticantes do mesmo pela formação machista a que são submetidos historicamente. Ser macho na sociedade é sinônimo de ser violento, de não chorar, de não desabafar o que o incomoda, de revidar com a ameaça do “te pego” no final da aula. Ser macho é ter que ser intolerante. Ser macho é jogar futebol e praticar mixed martial arts (que não são arte, tal como disse a atriz Meryl Streep), ser macho é andar com meninos “machos”. Se não conversamos com nossos meninos perpetuaremos a cobrança de  uma postura que não combina mais com a sociedade atual e é um dos maiores fatores de risco e incentivo para que tais abusos ocorram.
    Portanto para combater esta prática nas escolas e na sociedade temos que ter um exercício constante de TOLERÂNCIA com os demais, senão seremos piores que os cães que em uma matilha excluem o cão que não possui rabo. O exercício da TOLERÂNCIA passa por todos na escola. A tolerância e o combate ao bullying devem estar transpassando todos os conteúdos, cotidianamente, não precisa ter um motivo trágico, uma aula apenas, uma palestra apenas. Na família toda a hora, quem tem filho tem a obrigação de saber quem são eles e o que fazem quando estão sob o teto ou quando estão sob o teto de outrem. Parar, refletir, debater é um exercício familiar assim não se evita somente a prática do bullying e da violência mas também outras mazelas sociais.

Para debater

Video game:

“Bully” (Rockstar Games, 2006).
Desenho animado:

“Super Choque”, Episódios “Tantrum” (2001) e “Jimmy”, 11º Episódio da segunda temporada (2002) (vencedor do Prêmio Humanitas em 2003, uma época em que haviam autores de desenhos animados preocupados em estimular os jovens a pensar sobre os problemas sociais ao seu redor).
Filmes:
“Carrie, a estranha” (Livro de Stephen King que teve adaptações para o cinema, sendo a mais recente de 2013).
“Apocalypse Now” (1979) (Cena do ataque de napalm e surfe).
“Nascido para matar” (dirigido por Stanley Kubrick, 1987).
“Bang, Bang! Você morreu!” (2002).
“Evil - Raízes do mal” (adaptação de 2003 do livro “Fábrica da Violência”, do autor sueco Jan Guillou).
“Escritores da Liberdade” (clássico das diferenças)  (2007).
“Ben X – A fase final” (Ben X, 2007).
“Blackbird” (2012).
Documentários:
“Miss Representation” (Miss (Falta de) Representação, 2011).
 “The mask you live in” (A máscara em que você vive, 2015).
História em Quadrinhos:
“Atire!” (Publicada no Brasil em Vertigo Especial nº 1,  em maio de 2013). Escrita por Warren Ellis e com arte de Phil Jimenez antes do episódio que ficou conhecido como o Massacre de Columbine, “Atire!” estava programada para publicação nos dias seguintes à tragédia, mas foi suspensa e havia permanecido inédita até ser resgatada em 2010 na HQ Vertigo Ressurected nº 1.
Em 2014 a Marvel Comics  lançou uma série de capas alternativas que fizeram parte de uma campanha anti-bullying denominada “Stomp out bullying”, sincronizada com outras iniciativas nacionais para prevenir esse tipo de problema nas escolas. Os títulos cujas capas temáticas estão ligadas à campanha são: Rocket Raccoon # 4, Guardians of the Galaxy # 20, Avengers # 36, Inhuman # 7, Hulk # 7, Captain America # 25 e Legendary Star-Lord # 4. Nos Estados Unidos, a primeira segunda-feira do mês de outubro – que marca o retorno dos alunos á escola após as férias de verão, no hemisfério Norte – foi transformada no Dia da Camisa Azul, um símbolo de solidariedade relacionado à prevenção do bullying. Axel Alonso, editor-chefe da Marvel Comics, ressaltou que o bullying é um elemento ligado à origem de diversos super-heróis, basta lembrar da relação entre Peter Parker e Flash Thompson, nas histórias do Homem Aranha nos anos 1960 e 1970. Fonte: http://www.universohq.com/noticias/marvel-comics-usa-capas-para-campanha-anti-bullying/. Acesso em 26 out. 2017. OBS.: A capa da HQ do Capitão América foi alvo de críticas negativas devido à política externa e a cultura militarista e armamentista dos Estados Unidos da América.
“RISE: Comics Against Bullying” (2015).

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