Segunda, 09 de Outubro de 2017 às 20:28
Rinha em Palmeira das Missões é fechada com 143 presos
Cerca de R$ 100 mil foram apreendidos com participantes de evento
Por: Cristiane Luza - cristiane.luza@folhadonoroeste.com.br
Participantes foram flagrados no local na tarde de sábado. FOTOS - 39º BPM

Evento de rinha de galo previsto para durar três dias terminou com a prisão de 143 pessoas por maus tratos a animais em Palmeira das Missões, durante a Operação Três Capões realizada no último fim de semana pelo Ministério Público, pela Polícia Civil e pela Brigada Militar, com a participação de profissionais da Polícia Ambiental e do policiamento ostensivo.

No local chamado "Arena Três Capões", na tarde de sábado, os policiais se depararam com uma grande estrutura de rinha, 88 galos expostos à situação de crueldade e 147 pessoas, reunidas na propriedade do tio do vereador Tiago Stefani (PDT), que estaria comemorando seu aniversário. Conforme apurado pela polícia, o evento teria iniciado na sexta-feira e se estenderia até a tarde de domingo.

Além do legislador, apontado pela operação como organizador, foram identificados três policiais militares da reserva, um de Santa Catarina e dois do Rio Grande do Sul, um de Palmeira das Missões e outro de Jaguarão. "Havia a participação de um vereador aqui de Palmeira das Missões, da família do proprietário dessa área. Uma pessoa que, pelo cargo, deveria dar exemplo à comunidade, deveria zelar pelo cumprimento da lei, deveria se comportar de maneira decorosa, honrosa, mas estava justamente fazendo o contrário, organizando esse evento, desafiando a ação das autoridades públicas", expôs o promotor de Justiça Marcos Rauber, em coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira, 9 de outubro.

Na rede social Facebook, o edil se manifestou em nota dizendo que não organizou o evento, apenas foi a convite de amigos e eleitores. "Na verdade, fui convidado por vários amigos e eleitores para um evento que se realizaria em uma propriedade rural de um tio, pediam o meu apoio em um projeto junto às associações ANCRIB e ANACOM que visam o registro dos galos "Mura", patrimônio genético brasileiro, junto ao Ministério da Agricultura. Como membro do legislativo municipal, responsável pela edição e fiel cumprimento das leis, fui pesquisar e tive conhecimento sobre uma Lei editada pelo município, 1781/91, a qual considerou manifestação cultural e liberou esses eventos. Todavia, sei dos movimentos ambientalistas que estão perseguindo práticas de exposição de aves combatentes, vaquejada, entre outros, sendo o entendimento dos tribunais superiores em sentido contrário a tais práticas. Ocorre que, meus eleitores sabem que apoiarei os projetos e ideias apresentadas dentro do limite da legalidade, portanto, acho palpável que os criadores procurem os meios legais para registro e criação dos seus animais, projeto que não é de minha autoria", defendeu.

Rauber disse que com base nos elementos colhidos, o MP pretende encaminhar à Câmara de Vereadores um pedido para que os edis analisem eventual quebra de decoro parlamentar e perda do mandato. "Não entendemos como compatível esse tipo de conduta com a importância do cargo de um vereador, alguém que tem que representar a comunidade", justificou.

As pulseiras identificadoras dos participantes tinham notas fiscais em nome de um profissional inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Vamos reportar à OAB para as devidas providências de âmbito disciplinar", acrescentou Rauber.

Com 54 das 146 pessoas presas por maus tratos a animais foram apreendidas quantias em dinheiro que chegaram a somar cerca de R$ 100 mil. Outras 89 foram autuadas pelo mesmo delito, mas os policiais não encontraram valores com elas. Um homem responderá por corrupção de menor por ter levado o filho adolescente ao evento. Com exceção desse último caso, todos os demais assumiram o compromisso de se apresentar ao Juizado Especial Criminal de Palmeira das Missões e foram liberados após a lavratura do Termo Circunstanciado.

Os policiais ainda localizaram quatro mulheres de Balneário Camboriú (SC) suspeitas de estarem praticando prostituição com participantes da rinha. Com elas foram encontrados R$ 14 mil e dois invólucros de maconha, o que caracterizou posse de entorpecentes. "Além dos crimes ambientais, da posse de entorpecentes, exploração da prostituição, corrupção de menores - com participação de adolescente -, eventual associação criminosa, esse tipo de evento também representa o risco da prática de outros crimes graves. Tivemos há anos atrás uma tentativa de homicídio motivada por uma discussão em uma rinha de galo, envolvendo pessoa da mesma família que estava organizando o evento", lembrou o promotor de Justiça.

Estrutura de arena

Ainda foi apreendida grande quantidade de materiais característicos da prática, como medicamentos, esporas, biqueiras, pulseiras para participantes, balanças para pesagem dos animais, camisetas e até bonés personalizados. "Não era um evento pequeno. Era um galpão em que estava organizado um setor de copa individual, banheiros, uma arena pequena em um canto da propriedade e uma arena maior onde estavam as pessoas sentadas quando chegamos. Essa arena maior estava centralizada no chão, em volta tinha cadeiras com estofamento improvisado, com identificação, possivelmente apostadores ou criadores, e tinha arquibancada. Era como se fosse realmente uma arena. Pelas pulseiras, as pessoas pagavam valor x para ingressar nesse galpão. [...] Outro compartimento tinha gaiolas de madeira, bancada de apostas com quadro indicativo dos apostadores, com valores, e possivelmente identificação dos animais. Lá encontramos também bonés e camisetas que são um desaforo, dizem 'criamos por amor, eles brigam por instinto'. Como se as pessoas não fomentassem os animais para que ocorresse essa gravidade. Temos fotos de animais sangrando, em carne viva. Encontramos um galo com a espora serrada, estava quase sem penas, com biqueira e uma espora improvisada presa com um esparadrapo", revelou a delegada Cristiane Riel, que disse que a situação chocou a todos quase ao fim da operação, encerrada depois da meia-noite de ontem.

O comandante do 39º Batalhão de Polícia Militar, major Romulo Serafini, comentou que o atrevimento dos participantes ficou evidente. "Essa arena não foi montada só para esse evento. Esse caso do galo, ele foi mutilado. Estava sangrando à 0h30, esse bicho ficou agonizando quanto tempo?", destacou.

Abate humanitário

Segundo o promotor de Justiça, o destino estudado para os galos é o abate humanitário, com base em pareceres técnicos. "Não queremos que esses animais voltem para as mãos dessas pessoas. Há um movimento dessas pessoas no sentido de buscar a recuperação da posse desses animais. O encaminhamento para a escola agrícola, por exemplo, não se mostrou viável porque não tínhamos lá condições de segurança para a custódia desses galos. Eles não podem ser soltos juntos no pátio porque se agridem. Nós não identificamos por enquanto criador idôneo para a custódia desses animais e temos convicção de que se forem oferecidos para adoção, de alguma maneira, serão recuperados pelas pessoas que foram alvo dessa operação", explicou sobre o porquê de a medida ser levantada.

Balanço divulgado pela Brigada Militar

- 143 pessoas presas pelo crime de maus tratos;

- Duas pessoas presas por posse de substância entorpecente;

- Uma pessoa presa por corrupção de menores;

- Apreensão de cerca de R$ 100 mil;

- 88 galos de rinha apreendidos;

- Cinco galinhas de reprodução apreendidas;

- Dois invólucros com substância semelhante à maconha;

- Uma espingarda calibre .20;

- Duas facas com 30 centímetros de lâmina;

- Duas caixas com pulseiras identificadoras com as respectivas notas fiscais em nome de um advogado;

- Uma balança para pesar os animais;

- Camisetas e bonés personalizados;

- Inúmeros materiais e equipamentos utilizados para brigas e para os animais, como substâncias químicas para serem injetadas nos galos.

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