Entre o bolso e o moralismo
Quinta, 12 de Outubro de 2017

A pauta exaustiva do momento é arte. Todos viramos especialistas para decidir o que é arte ou não é, qual o limite entre nu artístico e pornografia, o que pode ou não ser acessível às crianças. Outrora, já foi a presença de crucifixos em prédios públicos, a legalização do aborto, da maconha, a redução da idade penal, até a Lei Rouanet e seus incentivos fiscais para financiar a cultura.

Sem dúvidas, são pautas importantes. Tão importantes que penso que paixões e radicalismos só prejudicam o debate sério. Porém, a coisa fica ainda pior quando qualquer polêmica é feita pela polêmica, com o único objetivo de avacalhar com quem pensa diferente. Os radicais de direita, que passaram duas décadas dormentes, aprenderam com os radicais de esquerda e ainda melhoraram a cartilha, que prega coisas como nunca dialogar com o diferente. Nesta estratégia, “comunista” ganha o mesmo valor pejorativo de “burguês”, e usam a palavra “democracia” para impor uma espécie de ditadura de opinião. Prova disto é que, na busca do Twitter, é possível ver Fernando Henrique Cardoso sendo chamado de “esquerdista” pelos integrantes do Movimento Brasil Livre (a nova extrema direita escondida sob o manto do liberalismo), o mesmo personagem que já foi considerado como “representante do capitalismo americano” pelos radicais de esquerda.

O fato é que há uma guerra de conceitos que mais confunde do que esclarece. Cada lado, com suas meias verdades, prega o absolutismo, a segregação, o ódio. Em meio a tudo isto, temas que deveriam importar passam batidos. Um exemplo: a privatização da Eletrobras. Você, amigo leitor, tem uma ideia clara sobre isto? É algo positivo, ou negativo? Conhece os números envolvidos, se será cobrado um preço justo, se o valor será investido ou apenas usado para financiar iniciativas populistas, ou se é para cobrir rombos deixados por erros do governo? Há um rombo na estatal? Foi causado por má administração? De quem? É irrecuperável? E no teu bolso? Qual será o impacto?

Eu falo por mim: sinceramente, não sei. Por mais que busque dados, o que mais encontro são opiniões apaixonadas. Enquanto isso, o governo federal pretende concluir a venda até o primeiro semestre do ano que vem (algo que pode repercutir na CEEE). Proporcionalmente, esperava que este assunto tivesse mais espaço nos noticiários, nos espaços de debates, e até nas linhas do tempo do Facebook. É compreensível que temas mais ligados “aos costumes”, como aqueles citados no primeiro parágrafo, incluam mais pessoas nas rodas. Todos nos sentimos mais aptos a falar sobre algo mais próximo da nossa realidade. Agora, nada disto vai tirar dinheiro do teu bolso, e creio ser possível conviver numa sociedade em que cada um tenha a liberdade de cultivar seus próprios valores. Enquanto isto, emendas parlamentares jorram dos cofres públicos para sustentar o atual governo, cargos são criados para este mesmo fim, e ativos podem ser vendidos quase em silêncio. Será que não está na hora de mudarmos nosso foco? Um pouco menos de moralismo seria desejável.

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