Pobre geração
Sexta, 29 de Setembro de 2017

E a polêmica da semana (além do afastamento de Aécio Neves do Senado) – e que trouxe discórdia às redes sociais – foi a decisão superdividida, por 6 votos a favor e cinco contrários, do Supremo Tribunal Federal de que o ensino religioso em escolas públicas pode estar ligado a uma crença específica. Se no STF houve clara divisão, imagina no Facebook...

Antes de mais nada, é importante ressaltar que (desta vez) não foi um projeto parlamentar que desencadeou tudo. Foi a partir de um acordo entre Brasil e o Vaticano firmado em 2008, que prevê que o “ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas do ensino fundamental (alunos entre 6 e 14 anos), e que podem ser ministradas por religiosos (padres ou pastores, por exemplo). A Procuradoria-Geral da República, cuja tese foi derrotada, defendia que a disciplina deve ser voltada para a história e a doutrina das várias religiões, ensinadas sob perspectiva laica, e não de maneira confessional.

Nem louvo nem deslouvo a decisão do STF. O que me preocupa de verdade são as reações das pessoas sobre temas que mais são vendidos como polêmicos do que realmente são. As mesmas pessoas que louvam a vitória no STF são aquelas que espernearam contra a “ideologia de gênero” ou contra a doutrinação ideológica nas escolas públicas. E vice-versa (quem condena agora, defendia outrora). E o problema não se limita apenas à incoerência. A divisão da sociedade está atingindo diretamente as crianças.

Independentemente de posição, esse tipo de atitude (que vai acabar estourando no pobre do professor) demonstra a falta de seriedade dos pais para tratar de Educação. A formação dos filhos se transformou em disputa simbólica, em necessidade de imposição daquilo que alguns chamam de valores, como se houvesse uma verdade absoluta.

Ademais, o pior disto tudo é que é mais uma prova que estamos desaprendendo a conviver com as diferenças. Vamos chegar a um ponto em que a intolerância vai obrigar um mesmo Estado a proporcionar tipos de escolas diferentes. Ou, pior, chegaremos ao radicalismo de alfabetizar a criança em casa para que não precise ir ao colégio para não conviver com o diferente.

Corremos o risco de estarmos criando uma geração de crianças superprotegidas e subestimadas, de pensamento tacanho. Ou pior: dada a facilidade de acesso à informação proporcionada pela internet, podemos incorrer no erro de gerar um efeito pior, o de permitir que os estudantes assimilem conteúdos de todos os tipos (e de maneiras equivocadas) vistos das telas de computador sem a mediação dos professores, cujo papel é esclarecer, ampliar e aprofundar o pensamento.

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