Dia de receber abraço
Sexta, 11 de Agosto de 2017

Ouvindo Genesis -Genesis - Follow You Follow Me

Um quadro de pura arte, gravatas em guache, talvez um cartão com o auxílio da Querida Profe, ou uma caixa destas de madeira que guardam maçãs na feira, assim meio bamba, mas sólida o suficiente para resistir ao quase metro de puro coração que se arrasta pelo corredor. A cena está num quadrinho destes, nem lembro o autor, mas é antológica.

Por anos vi isso e convivi com estas demonstrações. A família teve papelaria e só quem passou entre as prateleiras pode imaginar um mundo de criatividade tal. De uma cartolina de tonalidade clara pode sair algo que irá levar homens feitos às lágrimas, e isso é bom, mostra que ali ainda vive o menino interno, aquele que faz o olho brilhar, até o outono.

Patriarca é seiva. Sei, a mãe é figura mágica, cura quase tudo, tem caldo poderoso e feitiços que funcionam, mas o bruxo normalmente é aquele que olha longe, fala pouco e de forma pontual, quase que cirúrgica.

Vi alguns deles durante a caminhada. Poderia citar nomes, mas foram pais em parentesco ou de amigos da curva, cada qual com sua característica. Convivi com as histórias contadas e ouvidas, quase que em segredo, coisa de amigo, de irmão.

Vi também uns que foram apenas zigoto e que infelizmente perderam esta possibilidade quase sobrenatural de ver crescer, mesmo sob tetos diferentes. A estes, deixo apenas meu pesar. Nada se compara com a paternidade, andar até a escola, brincar de algo inusitado, conversar e finalmente receber abraços.

Em época de falsos amigos, de vendetas e de muita coisa acontecendo, me lembro que meu saudoso pai disse: “Seja amigo, de verdade. Eles estarão contigo depois de tudo e antes de nada”. Guardo como pérola no fundo do armário, só acessível a poucos e bons, firmes como rocha e brilhantes como a lua.

Ter um pai para se aconselhar é antes de qualquer coisa bênção, destas que se ganha no nascimento. E não ter é barra. Aos poucos vamos entendendo os sinais que ficam espalhados pelo caminho. Saber ler a situação é exercício de observação pura, coisa de sabedoria indígena, que pelo simples menear de cabeça já antevê acontecimentos. Talvez seja um xamanismo disfarçado, pai toma chimarrão, acho que esta combinação amplia horizontes, aconchega o peito e faz com que as palavras soem mais serenas e firmes.

Primeiro herói, aliás, o mais super deles, descobrimos já quando a prata aparece no cabelo, antes temos muitas DR com eles, em função disso e daquilo. A diferença é que pai não grita, fala, a entonação da voz é distinta, alguns tão seguros que escondem perfeitamente o medo deles e acabamos imaginando que eles não o têm. Descobri muito tempo depois que têm sim, e tanto e em tal nível que os abala, a febre, a briga com colega de escola, a falta de apetite, a escolha desta ou de outra cor, paladinos da imensidão, descansam quando podem, por vezes recostados em cadeira. O meu descansou assim, para sempre.

É, quando aparece o calendário por aqui no segundo domingo de agosto, dá sensação diversa. Aos poucos vão passando de presença quase mágica a sua falta. Se você que lê ainda tem, corre e dá o abraço, aquele demorado, até que ouça perfeitamente a batida do coração. Poucos percebem isso, e quando soubermos seu valor, pode faltar o eco e aí é duro.

Para quem é pai, vai o abraço. Para quem faz o papel dos dois, meus respeitos mais profundos. Para quem ainda não chegou neste ponto, prepare-se, é coisa que irá mudar você para sempre, até mesmo depois da curva.

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