Facilidade de produção, mas preços baixos
Quinta, 12 de Outubro de 2017

Tenho lembrança das décadas de 1980 e 1990 onde o agronegócio era tímido e não se via muito futuro na agricultura brasileira. Tanto é verdade que quando frequentava o curso de agronomia, uma das preocupações era o campo de trabalho. A partir do Plano Real e dos incentivos públicos, principalmente dos financiamentos para o setor, o agronegócio deslanchou. Ano após ano são anunciados recordes de produção. A modernização do setor agropecuário trouxe conforto para a produção, porém está lhe exigindo competitividade. Não é porque se produz mais que os preços serão melhores. Entra em jogo a eficiência e o custo de produção. O agronegócio brasileiro se modernizou, assim como o dos demais países. Se ficou fácil e confortável produzir por aqui, nos outros países também ficou. Junto com as facilidades de produção deram curso os tratados internacionais facilitando as importações e exportações. Assim movimentam-se produtos mundo afora com muita facilidade onde o comprador acessa o que melhor lhe convém. É a lógica do mercado. Quando há vários fornecedores com produtos semelhantes busca-se o mais favorável. Se a demanda enfraquece sobra produto no mercado. Para manter preço ou se produz menos ou se baixa o preço. É o que está acontecendo com o leite. Nossa produção anual quase supre o consumo interno. Importamos entre 3% e 8% do que consumimos. Porém, com o inverno ameno, houve condições favoráveis de produção que vêm se somando aos altos volumes que historicamente são produzidos na primavera e tendendo a se manter no verão. Nosso consumo diminuiu consideravelmente em função da crise econômica. É certo que o brasileiro está consumindo menos produtos lácteos e, com isso, sobra produto no mercado. No ano passado o consumidor chegou pagar quase R$ 5,00/litro do leite longa vida. Hoje, há marcas pela metade do preço, e mesmo assim o consumo não reage. Por falar em leite, o ministro da Agricultura anunciou o que os produtores esperavam: barrar as importações do Uruguai. Pessoalmente, acho que não vai resolver muito. Será um paliativo que logo não será suficiente. Nossa produção ainda é muito cara e ineficiente. Há a necessidade do profissionalismo e do cumprimento das legislações por completo, como é o caso da Instrução Normativa 62, que se empurra com a barriga para a aplicação na integralidade. Outro setor que sofre é o dos cereais de inverno, especialmente o trigo. Estamos na época da colheita e o cereal, além do preço desestimulante, começa a ser castigado pelo clima. Vendavais e chuvaradas depreciarão o produto vertendo em preços mais baixos do que se pratica hoje. Clima que contribuiu para um inverno menos rigoroso que favoreceu para o ataque de lagartas na cultura do milho, deixando os produtores em apuros para o controle. Uma situação desconfortável cujas tecnologias adotadas pela metade vêm causando incômodos para os produtores. Hoje temos mais facilidades para a produção, porém exige-se conhecimento de múltiplas áreas para adotar as tecnologias. A negligência ou a subestimação pode custar caro.

Comentários