Ler não significa interpretar
Quinta, 12 de Outubro de 2017

Se você está lendo essa coluna, parabéns! Você foi alfabetizado! Provavelmente teve uma boa formação escolar que o fez atingir essa relativa maestria. Para muitos outros, aprender a ler e escrever ainda é um sonho...

Acredite, há ainda muita pobreza e ignorância no mundo em que vivemos, por falta de oportunidades, falta de condições sociais, falta de organização por parte das sociedades e nações. E o analfabetismo é apenas um dos inúmeros resultados dessa condição.

Mas há ainda outro analfabetismo inquietante, que burla as estatísticas educacionais e engana as avaliações sociais... O analfabetismo do ler sem saber interpretar...

Um analfabetismo que impede que o cidadão tenha qualquer reação social contra os abusos econômicos, políticos e institucionais.

Enquanto uns desfrutam de muita riqueza e facilidades, outros seguem vítimas da miséria residual das economias globais e das práticas governamentais que beneficiam poucos em detrimento de muitos. Assim também é aqui no Brasil, não restam mais dúvidas.

Para muitos, ter saúde e o que comer ainda é um sonho... Sequer um dia terão acesso a esse texto! Suas vidas anônimas não permitirão nem mesmo um primeiro acesso ao conhecimento das letras; que dirá, das entrelinhas.

Nestes últimos anos, de tantos escândalos de corrupção, o gigante não acordou - o gigante apenas se revelou.

Estamos vendo “o quanto não somos”... Não somos honestos, não somos justos, não somos éticos, não somos imparciais, não somos respeitosos, não somos dignos, não somos povo heroico de brado retumbante.

Somos apenas um povo “colcha de retalhos”; não somos uma nação.

Não temos educação digna, atendimento de saúde digno, segurança para nossas crianças, investimentos estruturais dignos, governos dignos, parlamentos dignos, instituições judiciárias dignas. Sem generalizar, é claro que temos uma parcela de cidadãos empenhada em construir uma vida digna e harmônica para todos, inclusive dentro dessas instituições, mas sem capacidade de comandar e endireitar um país.

É lamentável observarmos o quanto ainda nos falta para transformarmos as pessoas desse rico país em verdadeiros cidadãos voltados para o coletivo e não para o individualismo material, moral ou intelectual.

A luta interna é árdua e prolongada. As forças das minorias dignas são combatidas a todo o momento. O gigante ignorante é forte e ligeiro. E segue deitado (eternamente?) em berço esplêndido.

Pedir ajuda para quem num momento desses, em que quanto mais se aumenta a percepção da globalidade, mais se verificam as divergências entre as nações, cada uma lutando para dar conta de seus próprios problemas econômicos, políticos, religiosos e sociais?

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